Texto publicado originalmente no Jornal Imaginário Popular.
Um belo par. Dois sapatinhos brancos delicados, uma pequena flor, e os sapatos pretos engraxados. Passos juntos, lado a lado.
- Foi mesmo surpreendente a palavra de hoje. Foi como que para mim. Tudo o que passei na semana confirmando.
- É muito bom quando Deus fala. Mas eu te confesso que isso me deixa um pouco com ciúmes.
- Bobo! Eu escolhi me casar com você e, embora você não seja o pastor, é nas suas mãos que vou entregar a minha vida. Jesus e você, minhas paixões.
- Falta um mês! E assim eu te guardei, Florzinha, como seu pai confiou e esperou que eu te preservasse.
- Pronto, este é meu ponto – sorriu.
- Eu fico até seu ônibus chegar.
- Não precisa, está cheio de gente aqui.
- É, mas nenhuma dessas pessoas morreria por você.
Que são quinze minutos de espera? São quinze minutos de espera, oras! Mas que são quinze minutos de espera acompanhado da tua flor, a rosa com a qual despendestes tempo suficiente para que se tornasse especial?! Quinze minutos... a eternidade evidente dentro do tempo, lampejos de completude, fogos na escuridão.
De repente, caos!
- Aí, bicho! Todo mundo quietinho! Todo palhaço de costas com o celular e a carteira na mão e toda piranha com a bolsa levantada e sem dar um pio, falô?
- Gostei desse relógio, cara! Quietinho, senão eu passo fogo!
- Eu tô boladão, dona, tô a fim de passar um otário hoje só pra relaxar, falô?
- E aí, Joe? Que que nós vamo fazê com essa belezura aqui?
- Olha aí, é crente, Zinho. É a noivinha do pastor com a bíblia na mão...
- Vem cá, tetéia, que eu vou te ensinar a rezar, he he.
- Cai fora, vocês três! Agora! Ninguém toca nela!
- Ihh, apareceu o super-homem!
E estendendo a mão a meio metro de distância do peito do rapaz, disparou. Dois tiros secos e o silêncio em torno. Quantos covardes há no mundo calados? E quantos covardes há no mundo fazendo calar?
A moça berra: “Vai embora, em nome de Jesus!”
- Ihh, Joe, sujou. Cê matô o cara! Corre, fii. Vamo logo, Zinho!
A moça grita, “chama uma ambulância, pelo amor de Deus!”
Um outro sujeito, “fica com ele que eu vou ligar do orelhão!”
A moça, “ah, meu Deus! Socorro!”
Que são quinze minutos? Que são? O tempo de uma despedida? O próximo minuto é sempre a esperança, porque a verdade é que não temos próximo minuto algum. E tudo se decide aqui, agora, para sempre.
A moça sentada no chão, o rapaz apoiado em seu colo, o vermelho pondo fim às reticências. O rapaz olha nos olhos dela: “Que glorioso fim, morrer nos teus braços!” Sorri e, soluçando sangue, expira.
A moça desfaz-se em lágrimas, perde a voz num clamor vazio e sem forma, quando o som do desespero vira um grito de silêncio. Ela fecha os olhos. Ela pensa casamento, festa, lua de mel, nosso lar; respira. Ela pensa filhos, uma vida tranqüila e simples; respira. Ela pensa que ali está o amor de sua vida, morto; respira. Ela limpa o nariz; respira, limpa os olhos; respira.
Ela inspira profundamente e afirma para si e para Deus: Amém!
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